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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Raízes do ódio


Há uma manipulação da História que acaba referendando a reforma agrária, assim como induz a condenação da propriedade privada, dos proprietários rurais e, de quebra, do capitalismo.

Ensina-se nas universidades e escolas que, anteriormente à Revolução Industrial, os cercamentos ingleses (a delimitação das propriedades rurais) jogaram dos campos para os subúrbios ingleses, milhares de ex-camponeses que serviriam como mão-de-obra barata às incipientes indústrias, sendo exploradas pelos pérfidos capitalistas no início da Revolução Industrial.

Já no Brasil quem é taxado como vilão é o famigerado latifundiário, muitas vezes ainda chamado de grileiro, que tomou a terra dos pobres posseiros que não tinham títulos de propriedade da área onde estavam. Estes posseiros, por sua vez, tiveram que se encaminhar para as cidades, aumentando a favelização e a criminalidade urbana. Dessa forma, a reforma agrária nada mais é do que a justa redistribuição de terras para aqueles que foram dela tiradas. Esta tese foi encampada pelo falecido sociólogo Betinho e até por alguns atores globais em campanha de opinião pró-reforma agrária.

As duas visões acima expostas são errôneas, mas elas estão entre as que geram preconceitos contra a classe rural.

Tanto na Inglaterra do século 18, assim como no Brasil de meados do século 20, morar no campo só era bom na cabeça de alguns ditos intelectuais urbanos. As cidades sempre foram um atrativo por seus recursos – fossem de saúde, trabalho ou convívio social – para pessoas que moravam isoladas e muitas vezes padeciam à míngua.

Os historiadores neomarxistas omitem que o tão condenado uso de mão-de-obra infantil no início da Revolução Industrial, era comum já bem antes no meio rural. Omitem que sob o feudalismo, o destino de muitos camponeses era a fome e a morte. Omitem que a população rural inglesa buscou nas fábricas uma fonte de sustento, assim como chineses fazem hoje na China, com mais de duzentos anos de atraso. Omitem que o capitalismo melhorou a vida dos trabalhadores à medida que evoluiu.

No Brasil não podemos deixar de dizer que houve problemas em regiões que estavam sendo colonizadas, mas daí a generalizar os proprietários rurais como latifundiários ou grileiros, é uma injustiça, ou, no mínimo, uma difamação. Muitos posseiros se mantiveram nas áreas que foram legalmente tituladas pelo Estado aos fazendeiros. Outros preferiram trocar suas áreas por uma casa na cidade, o que era muito mais interessante para eles do que viver na insegurança do campo, rodeados por cobras, onças ou doenças advindas da mata.

Isto sem dizer que a maior parte das áreas rurais era desabitada, o Brasil é um país continental e que até há poucas décadas tinha um povoamento essencialmente litorâneo. É ilusão pensar que o êxodo rural foi causado por grileiros que expulsaram posseiros, aliás, isto é mentira. O êxodo rural é um fenômeno mundial e, sobretudo, de livre opção daqueles que saíram, e saem, do campo.

Os pioneiros que chegaram de carro de boi para desbravar áreas até então desabitadas se surpreenderiam se décadas depois ouvissem nas faculdades os professores contarem como eram poderosos aqueles tais latifundiários (eles). Pior ainda seria saber que eram chamados de improdutivos, de certo porque não possuíam maquinário ou machados suficientes para derrubar hectares de matas.

Não menos desanimador é pensar no produtor que entrou há vinte, trinta ou cinquenta anos na atividade rural e agora carrega a culpa – às vezes sem nem saber disso – de ser um gerador de injustiça social ou algo do tipo.

Qual a implicação disso tudo?

Políticas públicas errôneas. Difamações. Animosidade social.

Qual a solução?

A verdade. O debate. A razão.



Mises (novamente ele) em As Seis Lições escreveu:

“A velha história, repetida centenas de vezes, de que as fábricas empregavam mulheres e crianças que, antes de trabalharem nessas fábricas, viviam em condições satisfatórias, é um dos maiores embustes da história. As mães que trabalhavam nas fábricas não tinham o que cozinhar: não abandonavam seus lares e suas cozinhas para se dirigir às fábricas - corriam a elas porque não tinham cozinhas e, ainda que as tivessem, não tinham comida para nelas cozinharem. E as crianças não provinham de um ambiente confortável: estavam famintas, estavam morrendo.

E todo o tão falado e indescritível horror do capitalismo primitivo pode ser refutado por uma única estatística: precisamente nesses anos de expansão do capitalismo na Inglaterra, no chamado período da Revolução Industrial inglesa, entre 1760 e 1830, a população do país dobrou, o que significa que centenas de milhares de crianças – que em outros tempos teriam morrido – sobreviveram e cresceram, tornando-se homens e mulheres.”

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Kátia Abreu e os austríacos


Tive o prazer de ouvir recentemente a senadora Kátia Abreu (DEM – GO) numa apresentação na Famasul. A senadora é uma pessoa lúcida, que toma iniciativa em importantes debates e tenta buscar a razão em assuntos que muitos políticos preferem sair pela tangente por medo de desagradar setores organizados da sociedade ou mesmo por simples ignorância e covardia.

A desmistificação de falácias que cercam o meio rural é, portanto, uma das lutas da senadora. A importância da carne vermelha na alimentação, em especial para as crianças; a parceria entre produção de alimentos e preservação ambiental; a valorização do produtor rural, que muitas vezes é vilipendiado por deformadores de opinião, em sua maioria urbanos, e que não conhecem a realidade do campo, são constantes nas palavras da senadora.

Farei algumas observações que julgo procedentes à palestra da senadora, haja vista ela ser uma das melhores lideranças no país.

Kátia Abreu comentou que o Brasil tem uma comida barata – sim, temos umas das cestas básicas mais acessíveis do mundo –, mas deve se haver uma luta pela remuneração ao produtor, ou seja, se o produtor produz uma comida barata, mas por algum motivo obtém prejuízo, alguém deve ressarci-lo, isso é o que certos países da Europa e, em alguns casos, nos EUA, promovem. Só que isso está errado. Explico em seguida o porquê.

Preços são sinais. O lucro é obtido mediante o talento do produtor em se produzir bem, ou seja, da sua produtividade, mesmo diante de intempéries climáticas; do seu custo de produção; e do preço de venda. Se o preço do produto está barato demais e gerando prejuízo, ou a oferta é excessiva, portanto não há necessidade de tantos produtores canalizarem sua energia para aquele produto; ou simplesmente ele não é demandado, portanto o mercado – que são as milhões de pessoas que se alimentam –, não quer consumir aquele alimento produzido.

Se mesmo produzindo bem, o produtor ainda tiver prejuízo é sinal de que ele deve, ou diminuir custos ou mudar seu investimento; e se os preços não flutuarem livremente, não haverá como saber se o produto está sendo demandado ou não.

Kátia Abreu exemplificou a crise do agronegócio de 2006. O que aconteceu na época, na verdade entre 2004 a 2006, foi um enxugamento de uma bolha que aconteceu em 2002 e 2003, em virtude da forte entrada da China no mercado mundial comprando soja, e, principalmente, da disparada do dólar pela iminente eleição do PT à presidência da República, ou seja, uma interferência política na economia.

Naquela época, soja e carne subiram cerca de 50% em pouco mais de um ano, sendo que nos anos seqüentes os preços abaixaram, até que em 2006 atingiram o fundo do poço. Os produtores que investiram no negócio tiveram que brecar ou mudar os investimentos. Posteriormente a 2006 houve uma elevação dos preços a patamares satisfatórios.

A senadora ainda discorreu sobre um grande produtor que tinha o custo de produção da caixa de laranja em 3 dólares, enquanto seu vizinho, menor, possuía um custo de 5 dólares, em virtude da menor escala e do menor poder de barganha. Ora, nada mais do que normal. A produção em massa sempre favoreceu a diminuição do preço final.

Ninguém vai ao supermercado perguntar quanto foi o custo de produção do arroz, da laranja, da carne, do leite, etc. As pessoas fazem suas escolhas baseadas no preço e qualidade. Em geral a população de baixa renda prefere o quesito “preço”, sendo que quem produz em larga escala vai poder baratear mais o alimento. Por isso o economista austríaco Ludwig von Mises disse que o capitalismo é a “ditadura dos consumidores” e favorecia as classes baixas da sociedade.

A própria senadora matou a questão ao dizer que, para sua surpresa, o dono de uma grande montadora de máquinas agrícolas disse a ela que o ano havia sido excepcional em vendas. O que aconteceu é que os produtores mais eficientes e de maior escala estavam arrendando as terras de produtores menores ou menos eficientes. Isso é ótimo, há um ganho de escala e a produção rural está sendo dirigida aos mais competentes.

Os consumidores ganham com isso, pois vão ter produtos mais baratos; os produtores também poderão aumentar seus lucros pela maior escala; e aqueles produtores que arrendaram suas terras poderão se capitalizar para outra atividade (sendo que muitos já têm outras atividades mesmo). É uma espécie de “destruição criadora” – termo cunhado pelo austríaco Joseph Schumpeter, designando às mudanças dos sistemas de produção capitalista – para estes proprietários rurais.

O arrendamento de terras foi algo proibido na Alemanha nacional-socialista de Hitler. Mises já havia dito: “O liberalismo tem a honra de ser a doutrina mais odiada por Hitler”. É, eu acho que ele estava certo.

Portanto não há necessidade de intervenção governamental na produção rural. Seguros agrícolas, fixação de preços na bolsa de valores e demais artifícios para diminuir os riscos inerentes à produção rural, não precisam passar pelo crivo do governo. O governo, com raras exceções, tem ao longo dos anos atrapalhado a vida dos consumidores de alimentos, ou em último caso, tornado mais pesado o fardo dos pagadores de impostos que nem se dão conta das causas disso.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Roberto Campos, o exército de um homem só


Algumas palavras podem definir Roberto Campos: tecnocrata, pragmático, lúcido, liberal ou mesmo um idiota da objetividade como o intitulou o amigo Nélson Rodrigues. Para o economista, os bons exemplos, o que deu certo em outras nações, deveria ser copiado, pois os fundamentos eram basicamente os mesmos. Mas seguir o que deu certo é uma coisa difícil no Brasil, ainda mais nos tempos de Campos. Sua vida mistura-se com a vida do país por toda a segunda metade do século 20, mas mesmo sendo fundamental em muitas decisões da nação, no geral, o liberal foi um solitário.

Roberto Campos ajudou Getúlio Vargas a criar a Petrobras, que se dependesse dele seria de capital misto e não estatal. Campos também era contra o monopólio da empresa, a qual mais tarde passou a chamar de Petrossauro.

Após romper com Getúlio, reaparece no governo de JK, sendo o pai do Plano de Metas que tinha 3 linhas principais:

1) Austeridade orçamentária
2) Liberação cambial
3) Plano de desenvolvimento, o que JK mais gostou.

A construção de Brasília, com o conseqüente monumental dispêndio de verba, foi uma decisão única de JK, sobre a qual Roberto Campos foi contra.

Após toda turbulência do período Jânio/Jango, Roberto Campos torna-se ministro de Castelo Branco e juntamente com Octávio Bulhões, estabilizou a Economia contendo a inflação. Foi o período que Roberto Campos gozou de maior poder decisório.

Nas décadas de 50 e 60 foi defenestrado tanto pela esquerda, quanto pela direita nacionalista. A esquerda chamava-o de entreguista e alcunharam-no jocosamente de Bob Fields, insinuando submissão aos interesses estrangeiros. A verdade é que Campos não se preocupava com a nacionalidade dos investimentos, mas com os investimentos em si e o benefício que eles proporcionavam.

Já Carlos Lacerda disse que Campos matava os ricos de ódio e os pobres de fome. O “corvo” (apelido de Lacerda) não gostava da contenção orçamentária que Campos mantinha. A constituição de 1967 cujos artigos econômicos foram de autoria de Campos, segundo o próprio, foi a constituição menos inflacionista do mundo. Um dos artigos não permitia que o congresso nacional
fizesse emendas ao orcamento que aumentassem os gastos públicos da União.

As palavras de Lacerda eram pura injustiça, na verdade tratava-se de ressentimento por não poder dar vazão aos seus anseios político/populistas. O plano de Campos no período de JK criou milhares de empregos no Brasil. O ajuste orçamentário no governo Castelo Branco saneou as finanças do governo e o bom ambiente para Economia propiciou a gênese do milagre econômico brasileiro. Neste período atribui-se que mais de 30% da população brasileira saiu da faixa de pobreza.

Contudo, após a linha-dura assumir o poder, iniciou-se uma onda estatizante a qual Roberto Campos foi contrário. Sem poder alterar o curso das coisas, ele deixou o governo e o país, fazendo como que um exílio branco.

Na verdade um exílio bem confortável e proveitoso. Campos ficou na Inglaterra e acompanhou de perto a subida ao poder de Margaret Thatcher e o início de suas reformas.

Roberto Campos voltou ao Brasil no início da década de 80 e foi deputado constituinte. Aí viria sua grande tristeza. Nenhum projeto seu foi aceito para ser incluído na nova carta magna do país. A constituição lhe parecia um arroubo de garantias irreais que prometia tudo, mas não dizia de onde viriam os recursos. Em vários pontos era ilusória e demagógica, apenas para os políticos posarem de bem feitores sociais. Campos batizou-a de constituição-besteirol e ressalvou que ela travaria o desenvolvimento do país.

Roberto Campos não quis assinar a carta magna por considerá-la anticapitalista. Já o PT não quis assinar por achá-la muito pouco socialista. Um cérebro contra uma turba e um bando de néscios no meio a amenizar a situação.

Durante o plano cruzado de José Sarney, com seu congelamento de preços socialistóide, foi uma das poucas vozes a criticá-lo, ao contrário de uma professora e também mentora do PT (chegando a se eleger deputada federal posteriormente pelo partido) que chorou de emoção ao decreto do referido plano. O fracasso de tal plano que como todo projeto socialista gerou escassez de produtos, mostrou quem tinha razão.

Já no período Collor, Campos aprovou a abertura econômica do país. O proteccionismo nacional era demasiadamente elevado. Contudo votou pelo impeachment de Collor. Convenhamos, não há nada mais anti-liberal do que o confisco na poupança que o presidente “Minha gente” fez.

Finalmente chegamos ao governo Fernando Henrique. A venda das paquidermes estatais oriundas de Getúlio Vargas e dos militares, empresas deficitárias que o governo mantinha à custa de impostos e impressão de papel-moeda, auxiliaram o plano Real ser bem-sucedido. A inflação baixou, o trabalhador não precisava mais sair correndo para fazer as compras do mês antes que os preços aumentassem. O imposto mais pernicioso para os trabalhadores e para os mais pobres finalmente estava controlado.

A inflação não era causada pela ganância dos empresários, como havia dito uma vez Luís Inácio Lula da Silva, mas sim pela expansão monetária do governo que, ineficiente, recorria à incrível máquina de fazer dinheiro da Casa da Moeda para cobrir seus gastos.

Mas as privatizações foram satanizadas pela mesma turma que foi diametralmente contrária a Roberto Campos por ocasião da constituição de 1988.

Para garantir as benesses sociais da constituição de 1988 e também para cobrir seus próprios custos sem lançar mão de expansão monetária, os impostos subiram do patamar de pouco mais de 20% do PIB para mais de 30%. Hoje estamos com quase 40% do PIB abocanhado pelo estado, uma das razões para o baixo crescimento da economia brasileira em comparação com de outros países em desenvolvimento.

O antigo sindicalista chegou ao poder já depois da morte de Roberto Campos, mas sabiamente (ou “sabidamente”) manteve a linha econômica do governo anterior, mas sem deixar de satanizá-lo e muito menos agradecer a herança bendita da estabilização econômica que só correu risco verdadeiro na iminência de sua eleição. A carta do PT aos brasileiros trouxe um pouco mais de tranqüilidade aos mercados.

Para Roberto Campos a pobreza deixou de ser uma fatalidade, para se tornar o subproduto de opções erradas e de desvios de comportamento. Segundo ele, conhece-se hoje a grande síntese do desenvolvimento sustentado: razoável estabilidade de preços na macroeconomia; competição na microeconomia; abertura internacional; e investimentos maciços no capital humano. As vigas do edifício são o respeito à liberdade empresarial e ao direito de propriedade.

Este foi Roberto Campos, um homem que teve opiniões sensatas e incrivelmente corretas, a ponto de serem proféticas, no decorrer da vida. Nota-se que nas tomadas de decisão sobre os rumos do país havia os que tinham opinião errada; os que não tinham opinião e levavam-se ao sabor do vento; e ele, Roberto Campos, que possuía a opinião mais coerente, mas que só depois da nação perder 20, 30 ou mais anos na direção errada é que se dava razão ao economista.

O monopólio da Petrobrás; a Lei da Informática, de 1984, que rejeitava capitais estrangeiros nesse setor; e a exigência de maioria de capitais nacionais na exploração mineral pela Constituinte de 1988; todas foram coisas as quais Roberto Campos lutou contra, e perdeu.

As consequências, em ordem, são: 1) temos uma das gasolinas mais caras do mundo; 2) o país perdeu quase 10 anos com tecnologia informática defasada; e 3) a Cia Vale do Rio Doce após ser privatizada se tornou uma gigante mundial do setor, demonstrando como estava aquém do seu potencial quando gerida pelo governo.

Disse ele uma vez, parafraseando De Gaulle: “Estive certo quando tive todos contra mim”. Realmente esteve, e para azar do Brasil, ele não foi ouvido.

Ao cair o muro de Berlim em 1989 e com os acontecimentos do início da década de 90, a Folha de São Paulo publicou um texto intitulado: “Ok Bob, você estava certo!” Sobre tais acontecimentos Roberto Campos sentenciou: “O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os aludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos”.

Hoje em dia, em debates, sobretudo via Internet, as pessoas que argumentam contra as falácias socialistas e congêneres, se utilizam das frases espirituosas e lúcidas de Roberto Campos. Não seria exagero dizer em nome desses e de todos que tentam diariamente gerar valor para a sociedade:

Ave, Campos! Os que lutam em nome da livre iniciativa te saúdam!

domingo, 13 de junho de 2010

A benção, João de Deus


Poucas pessoas parecem ter sido tão escolhidas a dedo para ocupar um cargo como o papa João Paulo II. Primeiro papa não-italiano dos últimos 455 anos da Igreja Católica, Karol Wojtila era polonês. Filho da mesma Polônia católica que fôra palco da divisão entre nazistas e comunistas, em 1939, logo após o tratado nazi-comunista de não agressão.

Karol Wojtila conheceu de perto o horror dos nacionais-socialistas de Hitler e logo após, e durante mais tempo, do totalitarismo de Stálin. Vivia então sob a opressão de um regime que negava Deus e que punha apenas o marxismo no seu lugar.

Desde sua primeira encíclica, “Redemptor hominis”, de 1979, e seu primeiro documento social, o “Laborem exercens”, de 1981, ele combateu o comunismo, ao qual criticou por causa do ateísmo e da perseguição dos cristãos, mas também pelos aspectos antropológico e sociais, como sistema injusto que alienava a pessoa humana.

João Paulo II foi o papa que mais visitas fez aos outros países, tal qual o bom pastor que cuida de seu rebanho. Carismático, suas reuniões reuniam milhares de pessoas. Foi numa dessas, talvez uma das mais importantes, que, de volta à sua terra natal, após ter ouvido seus patrícios gritarem pelas ruas “Queremos Deus!Queremos Deus!”, o papa exclamou: “Não tenham medo!”. A frase referia-se claramente à opressão dos comunistas face à liberdade e à religiosidade.

As palavras de João Paulo II foram como fermento numa massa de pão. Os movimentos anticomunistas se reacenderam na Polônia e serviram de exemplo para demais países subjugados pela cortina de ferro. Havia também o medo no Ocidente de um novo conflito mundial de proporções letais para Humanidade. João Paulo II novamente renegou o medo e afirmou a confiança em Cristo.

Em conversa com o jornalista católico Vittorio Messori, o Papa João Paulo II disse: “Seria simplista dizer que a Providência provocou a queda do comunismo. Ele caiu por si mesmo, como conseqüência de seus próprios erros e abusos. Caiu por si mesmo por causa de sua própria e inerente fraqueza”.

Mesmo diante de tais palavras, muitos historiadores justamente reconhecem o papel fundamental do papa na derrocada do comunismo.

Disposto ao diálogo e ao entendimento, encontrou-se com muçulmanos, cristãos ortodoxos e protestantes. Pediu perdão aos judeus e também pelas injustiças cometidas pela Inquisição. Fez a expiação dos erros do passado, mas mirou o futuro, reassumindo o compromisso com a fé católica.

João Paulo II também viu surgir no seio de sua Igreja um movimento que utilizava a retórica da luta de classes, a Teologia da Libertação, propalada por padres da América Latina. Condenando tal doutrina, chamou seus pastores, apontando para as falhas de uma filosofia equivocada e enganosa.

Apesar de sempre buscar a pregação aos jovens, o papa não abriu mão de princípios conservadores. A família é o tijolo fundamental da sociedade e da vida de cada pessoa, por isso a importância de se fortalecer o sacramento do matrimônio.

Embora tenha ficado do lado Ocidental durante a conturbada época da Guerra Fria, isto não deixou que João Paulo II fizesse suas críticas ao mundo que estava se delineando diante de si. Para ele a democracia não devia ser canonizada, os fundamentos morais e éticos deviam estar em primeiro lugar do que a simples escolha da maioria. É importante lembrar que Hitler foi democraticamente eleito e mesmo Jesus Cristo foi crucificado ante consulta popular.

João Paulo II chegou ao fim da vida como santo papa. Já no seu leito de morte, milhares de pessoas se reuniram na praça da Basílica em Roma para orar por ele. Ao saber da quantidade de jovens que lá estavam, disse a eles:

“Durante toda minha vida fui ao encontro de vocês, e agora, no final de minha vida, vocês vêm até mim!”

A gratidão dos jovens de todas as idades é que fez tantas pessoas se moverem à ele; e se a fé move montanhas, a fé de João Paulo II moveu muito mais. À ele só posso dizer: a benção, João de Deus!

sábado, 5 de junho de 2010

Um Nobel para o Além



"Sr. Gorbachev: Abra este portão... Sr. Gorbachev: Derrube este muro!” (Ronald Reagan, Berlim, 1987)

No dia 5 de Junho de 2004 faleceu o ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan. Reagan foi presidente de 1980 a 1989. Para mim que era uma criança na época, tenho a lembrança de achar estranha a notícia daquele presidente que anunciava um sistema de defesa que a imprensa batizou de Guerra nas Estrelas. Parecia uma grande firula. Apenas anos depois, e não na escola, aprendi o que aquilo significava e a importância de Ronald Reagan para o mundo.

Ao discursar pela primeira vez como presidente, Reagan disse que o governo não era a solução, mas sim o problema. Isso fazia sentido pelo fato de décadas de dirigismo estatal na economia americana terem levado o país a uma situação que chamavam de estagflação, ou seja, estagnação econômica com inflação.

Reagan implementou algumas reformas que permitiram o crescimento econômico e a revitalização da economia americana. Isto permitiu que ele realocasse recursos para um grande fator de preocupação mundial da época: o perigo nuclear sob o signo da guerra fria.

Reagan chamava a ex-URSS de “Império do Mal” e juntamente com Margaret Thatcher e Karol Wojtila, o papa João Paulo II, foram os grandes personagens na derrocada do maior flagelo do século 20: o comunismo.

O ditado romano “Se queres a paz prepara-te para guerra.”, parece ter permeado o pensamento de Ronald Reagan. Se Reagan tivesse ouvido os politicamente corretos e sua inteligentsia (intelectuais), o comunismo ainda perduraria por algum tempo. Parece que a postura da referida classe não muda muito tanto lá quanto cá.

Reagan sabia que a economia soviética não teria condições de acompanhar uma escalada dos gastos em defesa por parte dos Estados Unidos. Apesar dos intelectuais que apregoavam a derrocada iminente do capitalismo e o inevitável triunfo do socialismo, a verdade é que a URSS não passava de um tigre de papel. A ferrenha oposição dos líderes soviéticos - inclusive Mikhail Gorbachev - à Iniciativa de Defesa Estratégica - que os inimigos de Reagan apelidaram desdenhosamente de "Guerra nas Estrelas" - representava o reconhecimento de que não poderiam desenvolver um sistema semelhante, a menos que virtualmente parassem a economia soviética.

As políticas Glasnost (Abertura) e Perestroika (Reestruturação) por Mikhail Gorbachev nada mais foram do que os atestados de que a URSS não podia mais competir na guerra fria. Talvez a maior conseqüência e o símbolo disso tenham ocorrido na Alemanha Oriental, com a queda do Muro de Berlim e a festa do povo que estava subjugado há anos pela opressão comunista.

O ator de “limitados recursos intelectuais”, foi o grande responsável pelo fim do modelo esquerdista clássico mundial. Seus críticos só esquecem de dizer que além de ator e radialista, Ronald Reagan cursou Economia e Sociologia trabalhando para custear seus estudos na Eureka College.
Reagan tem status de super-herói nos EUA, e no leste Europeu tem o reconhecimento de ter sido um grande semeador da liberdade em povos que foram dominados por décadas de totalitarismo, tendo isso custado não somente o cerceamento das liberdades individuais quanto o de milhões de vidas humanas.

Não foi à toa, portanto, que tenha sido em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, invadida por tanques soviéticos na década de 60 a fim de que o país permanecesse sob a influência da URSS, que Margaret Thatcher homenageou Ronald Reagan citando um poema de Byron em que dizia:

Espírito eterno do pensamento desacorrentado
Liberdade!
Mais brilhante és nas masmorras,
Pois lá a tua única morada é o coração
O coração que só o amor por ti pode unir
E quando seus filhos são subjugados aos grilhões
Aos grilhões e à obscuridade da cela úmida
A nação vence com martírio
E o nome da Liberdade encontra asas em todos os ventos

Parabéns Ronald, um Nobel, que nunca lhe deram, é pouco para você. Seu legado será lembrado e eternamente agradecido pelos que prezam a liberdade e a verdadeira construção de um mundo melhor.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Dama de Ferro com as asas da Liberdade


Margaret Thatcher foi a primeira e única mulher a ocupar o posto de primeira-ministra da Grã-Bretanha. Curiosamente ela não era bem quista pelas feministas, assim como não gostava das bandeiras empunhadas pelas seguidoras de Simone de Beauvoir.

Esta aversão à luta entre sexos, movida pelas feministas, talvez fosse uma variável da aversão à luta de classes, movida pelos marxistas. A primeira é de uma importância menor do que a segunda, mas tanto numa quanto na outra, a Sra. Thatcher foi vencedora.

Dona de uma inteligência aguçada e de extrema clareza de opiniões foi graças a ela, a filha do dono de um mercadinho da pequena cidade de Grantham, que se disseminou a mudança de todo ideário político-econômico que regia o Ocidente até então.

Margaret Thatcher nunca teve medo de parecer politicamente incorreta. Suas ações, muitas vezes impopulares e nas quais ela manteve posições irredutíveis, lhe conferiram a alcunha de “a Dama de Ferro”. Segundo ela mesma disse, sua política era de “convicção” e não de “consenso”.

Engana-se, porém, quem acha que a Sra. Thatcher abria mão de sua feminilidade para isso, pelo contrário. Extremamente feminina, polida e educada, sua inflexibilidade se baseava na confiança do que estava fazendo, e não por querer impor algum estilo “sargentona”.

Na década de 70, a Inglaterra apresentava inflação e desemprego altos. Os serviços essenciais eram todos estatais e tinham qualidade sofrível. Os sindicatos emparedavam o governo e as empresas. O mais forte era o dos mineiros. Eram tão influentes que derrubaram o primeiro-ministro conservador Edward Heath na greve histórica de 1974.

Thatcher assumiu em 1979 com uma plataforma de reformas que decolou em 1984, quando ela decidiu enfrentar os mineiros. Ela queria, e conseguiu, fechar minas que custavam uma fortuna em subsídios. Aos poucos o poder dos sindicatos diminuiu, dando espaço para um amplo programa de privatizações.

O sonho de Margaret era a do capitalismo popular, no qual cada pessoa tivesse condições de acumular patrimônio e poupança. As empresas privatizadas tiveram lotes de ações reservadas para serem adquiridas entre os funcionários de maneira facilitada.

O desemprego que num primeiro momento aumentou após suas medidas se deu por muitos empregos estatais serem inúteis, ou seja, os postos de trabalho eram cabides de emprego. A situação se assemelhava muito com a máxima de Bastiat, que disse: “O estado é a grande ficção na qual todo mundo tenta viver à custa de todo mundo”.

Thatcher, que tinha “O Caminho da Servidão” de Hayek como livro de cabeceira, conseguiu transformar a Inglaterra num país de oportunidades. Seus sucessores, o conservador John Major assim como o trabalhista Tony Blair, em nada mudaram a linha econômica deixado pela Dama de Ferro.

Sobretudo, a importância de Margaret Thatcher reside na demonstração que ela fez de que a livre-iniciativa das pessoas é mais benéfica do que o planejamento centralizado que era defendido pelos simpatizantes ao sistema vigente nos países comunistas.

Como muito corretamente observou o jornalista e escritor Paul Johnson: “O mundo entra no terceiro milênio mais sábio devido, em boa parte, à filha de um comerciante que provou que nada é mais eficaz do que a força de vontade aliada a idéias claras, simples e praticáveis”.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A voz da Resistência

We shall never surrender!







Depois daquela noite em Londres, quando a cidade havia sido bombardeada pelos aviões da Luftwaffe alemã, a Sra. Jones atordoada entre os destroços apenas pensa que é questão de tempo para aquelas bombas atingirem sua casa. A destruição e morte iminentes causam-lhe calafrios. Talvez fosse melhor que a Inglaterra se submetesse logo ao domínio de Hitler para evitar maiores perdas. Ansiosa para saber notícias de como estavam as demais localidades do país, ela liga o rádio.

Escuta então uma voz já familiar, rouca e pausada. Era o primeiro-ministro inglês reproduzindo o seu discurso de horas antes na Câmara dos Comuns: “...e nunca antes no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”

A Sra. Jones então ficou sabendo de como os Spitfires e Hurricanes digladiaram com os ME 109 da Luftwaffe pelos céus da Grã-Bretanha, estando em proporção muito diminuta em relação à força aérea alemã, tanto em número de aviões quanto de pilotos. Os que eram abatidos, que dos céus conflituosos caíam em seus pára-quedas, eram por automóveis resgatados e levados para algum aeródromo próximo onde, rapidamente, embarcavam em outros aviões para retornarem aos acirrados combates aéreos.

A inglesa então se emocionou ao lembrar que doara boa parte de suas panelas para a produção de fuselagem das aeronaves, pois o bloqueio alemão dificultava o acesso à importação de metais. Lembrou-se do relato de alguns amigos judeus que contaram como Hitler estava confinando aquele povo em campos de concentração. Quem iria garantir que ele não faria tal coisa na Inglaterra?

A frase da rainha Elizabeth: “Morrerei com o meu povo.”, ao se negar em partir para o Canadá, num exílio de fuga à ameaça nazista, fez a Sra. Jones se convencer de que era melhor resistir à se entregar. A luta pela Liberdade não tinha preço. E foi nesse pensamento que ela buscava motivação nas palavras daquele homem que falava ao rádio: Winston Churchill, a voz da Resistência.

Durante praticamente dois anos a Inglaterra lutou sozinha contra o poderio alemão. Tivesse ela caído, o mundo atual seria muito diferente do que conhecemos hoje. Churchill, já na década de 30, alertava para a ameaça nazista, sem, contudo, conseguir convencer a maior parte de seus patrícios para o futuro turbulento que os aguardava. Mas foi no período de maior necessidade que nele foi depositada a responsabilidade de comandar a Inglaterra no seu maior desafio, e foi através do rádio que ele conseguiu transformar uma nação desmoralizada num povo de resolução inquebrantável.

Hitler teve seu destino traçado quando atacou a ex-URSS, quebrando o pacto de não-agressão nazi-soviético, e abrindo duas frentes de combate. E também quando o Japão atacou Pearl Harbour, fazendo que os EUA até então neutros no conflito, mesmo ante os pedidos de ajuda de Churchill, entrassem na Segunda Guerra Mundial.

Após a entrada dos EUA ao grupo dos Aliados, Churchill mais uma vez demonstrou-se lúcido e profético: “Ganhamos a guerra!”. Contudo, não fosse a resistência do Reino Unido até aquele momento, não há dúvidas de que o desenrolar da História teria sido completamente diferente.


É interessante notar que muitos até hoje, tentam desqualificar um debatedor por sua classe social. Pois bem, durante a Segunda Guerra Mundial, o líder aristocrático era Churchill, ele fazia parte da elite britânica. Já o líder popular era Hitler, eleito Fuhrer pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Quem tinha a razão e os ideais mais nobres? O líder aristocrático ou o líder popular?

Churchill, após a guerra anteviu a nova ameaça que estava se formando: o imperialismo soviético. Alertou o então presidente Truman para o novo conflito que se iniciaria e lúcido como sempre, posteriormente declarou: “A Rússia soviética instalou-se no coração da Europa. Este foi um momento fatídico para a Humanidade.” Foi Churchill quem cunhou a expressão “cortina de ferro”, para designar os países que estavam no leste europeu sob o jugo da URSS.

Espantosamente, Churchill perdeu as eleições nacionais subsequentes à Guerra. O rei, logo em seguida, ofereceu-lhe a Ordem da Jarreteira, a mais cobiçada do império britânico. Churchill recusou-a com uma de suas tiradas típicas: "Obrigado, majestade, mas não ficaria bem. O povo acaba de me dar a ordem da botina". Humor sarcástico e espírito democrático.

Winnie (como gostava de ser chamado) ainda viveria mais duas décadas. Voltou a chefiar o gabinete por mais quatro anos (aos 77), ganhou o Nobel de literatura por sua obra História dos Povos de Língua Inglesa. Em 1953, dois anos após ter se elegido novamente primeiro-ministro, aceitou então a Ordem Jarreteira das mãos da jovem rainha Elizabeth II, filha da que ajudou Churchill a elevar a confiança do povo inglês. Winnie agora era um Sir, e a honra era da Inglaterra.



*Excertos de discursos e frases célebres de Winston Churchill:

“...E não creiam que isto seja o fim. É apenas o começo do ajuste de contas. Este é apenas o primeiro gole; a primeira prelibação de uma taça amarga que nos será oferecida ano a ano, a menos que, por uma suprema recuperação da saúde moral e vigor guerreiro, nos reergamos e tomemos posição em defesa da liberdade como nos tempos de outrora.”

“Finalmente eu tinha a autoridade para comandar todo panorama. Sentia-me como se estivesse caminhando com o destino e que toda minha vida passada fora apenas um preparo para esta hora e para esta prova.”

“Eu diria a Câmara o que disse aos que se juntaram a este governo: Nada tenho a oferecer, exceto fadiga, sangue, suor e lágrimas.”

“Iremos até o fim. Lutaremos na França, lutaremos nos mares e oceanos, combateremos com confiança cada vez maior e com crescente poderio nos ares; defenderemos nossa ilha custe o que custar. Combateremos nas praias, combateremos nas pistas de pouso, combateremos nos campos e nas ruas, combateremos nas colinas. Jamais nos renderemos! E mesmo que esta ilha seja subjugada e reduzida à fome, no que não creio um momento sequer, então nosso império de além-mar armado e defendido pela frota britânica, prosseguirá na luta, até que, quando Deus quiser, o Novo Mundo, com toda sua força e seu poderio, se apresente para salvar e libertar o Velho Mundo.”

“A batalha da França está terminada. A batalha da Grã-bretanha está prestes a começar. Dela depende todo nosso modo de vida. Toda fúria e todo vigor do inimigo deverão em pouco tempo ser assestado contra nós. Se fracassarmos, o mundo inteiro cairá no abismo de uma nova era de obscurantismo, tornada ainda mais sinistra, e talvez mais prolongada, pelas luzes de uma ciência pervertida. Portanto, cobremos coragem para cumprir nosso dever e nos comportemos para que, se o Império Britânico e a Comunidade das Nações durarem mil anos, os homens ainda assim possam dizer: Este foi seu momento de glória!”






A banda inglesa Iron Maiden fez uma música chamada Aces High, sobre a batalha da Inglaterra. O vocalista Bruce Dickinson curiosamente é historiador e piloto de avião. No início do clipe há um trecho do famoso discurso de Churchill.

sábado, 20 de março de 2010

Lula: amigo de ditadores assassinos


Cuba é uma ditadura comunista. Fidel Castro é um ditador comunista. Isto não se discute. É fato. Os cubanos trocaram uma ditadura ruim (a de Fulgêncio Batista) por outra bem pior. Por 50 anos no governo, el comandante passou o poder para seu irmão somente por motivos de saúde, como se a ilha fosse uma propriedade particular da família Castro.

Dada a atmosfera dos anos 50 e 60, a revolução cubana tomou ares chiques e progressistas, como se lá estivesse sendo lançada uma nova diretriz para a América Latina que, segundo as teorias terceiro-mundistas, era subdesenvolvida pelo dito “imperialismo” de outras nações, em especial dos EUA.

O tempo se encarregou de demonstrar que tudo não passou de ilusão. Cuba é a penúltima economia do continente, e não pelo tal embargo americano, afinal ganhou gorda mesada da URSS enquanto esta se manteve de pé.

Alguém deveria acusar o Japão de também ter sofrido embargo econômico da China e URSS nos anos da Guerra Fria, mas a ilha oriental nunca se preocupou com isto, apenas trabalhou para produzir bens de consumo demandados, o cerne do capitalismo, tornando-se a segunda economia mundial.

O Muro de Berlim caiu e o que se falava de positivo dos países da cortina-de-ferro mostrou-se propaganda enganosa. Assim é Cuba. A Educação na verdade trata-se de doutrinação ideológica, que apenas faz uma lavagem cerebral nos alunos em nome de uma “consciência revolucionária”. A Saúde então nem se fala, tanto que quando Fidel necessitou de maiores cuidados apelou para médicos espanhóis. Investe-se no esporte apenas como meio de propaganda do regime, como todo país comunista sempre fez.

O que acho interessante de tudo isso é que Lula não é um esquerdista nato. Moldado no sindicalismo, ele é mais chegado a um entendimento de ambos os lados do que a um confronto, sobretudo ideológico. Porque então tentar tapar o sol com a peneira desqualificando as críticas à Cuba?

Afinal, de múmias como Marco Aurélio Garcia pode-se entender que ainda tenham seus devaneios da juventude intactos no seu obsoletismo ideológico, mas Lula deveria poupar seus malabarismos verborrágicos para defender a ditadura castrista.

Logo que a URSS entrou em colapso, Fidel Castro estendeu sua xícarazinha pedindo esmolas em países da América Latina. Para isso ele congregou a esquerda do continente numa reunião chamada Foro de São Paulo, ao lado do PT em 1990. O maior fruto disso talvez seja Hugo Chávez que hoje é fiel colaborador econômico de Cuba.

Contudo, Lula só se elegeu quando deixou de lado o discurso de luta de classes, tão caro a Fidel et caterva, tanto que escolheu um rico industrial para ser seu vice. De forma que não vejo motivos para algum tipo de agradecimento de Lula a Fidel.

No fim penso que apenas o ímpeto de agradar a gregos e troianos é que pode levar Lula a esta visita a Cuba. Afinal, a antiga ala mais radical do PT ainda vive com a cabeça nos anos 60.

Mas não é tirando fotos e gargalhando ao lado de déspotas que Lula ganha ares de estadista, pelo contrário. Ao fazer isto apenas endossa seu desapreço pela democracia e pelos verdadeiros direitos humanos, atestando que o PT tem sim um DNA totalitário e que não evoluiu, mas apenas se adaptou para chegar ao poder.
* Artigo publicado pelo jornal Correio do Estado em 17/03/10

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Honduras, o menino do MEP da democracia









Acompanhar a política nacional e internacional é mais interessante que assistir qualquer filme de Hollywood ou novela da Globo. Vejam só. É sabido que as esquerdas bolivarianas nutrem desprezo pela democracia representativa e que a estratégia para se perpetuar no poder tem se dado por meio de plebiscitos precedidos de altas doses de assistencialismo e achaque às oposições. Foi assim na Venezuela, Bolívia, Equador, um pequeno flerte no Brasil e, por último, Honduras seguia essa trilha. Seguia.

Manuel Zelaya, amigo recente de Hugo Chávez, foi deposto após suas investidas contra a constituição do país que não permite reeleições e nem plebiscitos em ano eleitoral. O verdadeiro golpista em Honduras era Zelaya e não os que o afastaram do poder. Estes erraram no modus operandi, ao deportá-lo do país a toque de caixa. Zelaya deveria ter sido afastado do cargo e processado.

A despeito disso e de toda pressão internacional, o comportamento dos hondurenhos foi exemplar. Os militares não assumiram o poder, quem conduziu o país foi o líder do Legislativo, o civil Roberto Michelleti, que desde sempre disse que sua missão era conduzir o país ao processo eleitoral em Novembro. Dito e feito. Tivesse o Brasil feito a mesma coisa após a derrubada de Jango em 64, nossa História teria sido diferente e, quiçá, estaríamos melhores.

Ocupou parte do noticiário também o recente artigo “Os filhos do Brasil” (Folha de São Paulo, 27/11/09) de César Benjamin, ex-preso político e ex-integrante do PT. César Benjamin narrou em seu texto sobre uma reunião na campanha presidencial de 1994 na qual Lula descreveu sobre os 31 dias em que ficara preso em 1980 e onde ele tentara subjugar sexualmente um outro preso, ao qual se referiu como “menino do MEP”, por ser integrante de um grupo chamado Movimento pela Emancipação do Proletariado. Para a decepção de Lula, o “menino do MEP” resistiu às suas investidas com socos e cotoveladas.

Eu sabia há muito tempo que o atual chefe do Executivo não é um poço de virtudes, mas chegar a tamanho mau-caratismo me surpreendeu. Lula numa entrevista à revista Playboy em 1979 deu a entender que começou a vida sexual com práticas de zoofilia, algo tosco mas bem menos grave do que o narrado no artigo de César Benjamin.

Escatologias à parte o que fica de lição é isso. Há líderes populares, ou populistas, que almejam chegar ao poder absoluto se proclamando representantes do povo, mas o real desejo deles é fazer com a nação a mesma coisa que Lula queria fazer com “o menino do MEP”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A vaca sagrada do reino vegetal


Um indiano que viesse ao Brasil com certeza se chocaria ao ver o destino dos bovinos daqui. Se ele fosse à um frigorífico provavelmente diria: “Vocês levarão esses pobres animais à extinção. Dia após dia vocês os abatem aqui.”. O indiano imaginário estaria correto se por trás desse abate não tivesse toda uma fase da atividade pecuária denominada de cria. Ou seja, por mais que se abatam animais, eles jamais estarão em risco de extinção, pois o interesse econômico neles, garante a sua perpétua existência.

A mesma coisa deveria se aplicar às árvores que se fazem presentes nas pastagens e em algumas lavouras do país. Quero abordar mais especificamente aqui o caso da substituição das áreas de pastagens pela cultura da cana-de-açúcar ou simplesmente das pastagens que possuem árvores em seu meio.

A legislação brasileira traz uma grande burocracia para derrubada de uma árvore e isto se dá tanto no meio urbano quanto no rural. Há algum problema na derrubada de uma árvore? Para mim não há, desde que outra seja plantada em substituição àquela que foi cortada.

A atual legislação empurra para uma situação de perde-perde, ou seja, tanto o meio ambiente perde quanto o setor produtivo também. O que vem ocorrendo é o seguinte:

1- Os proprietários ou empresas mediante a burocracia preferem derrubar estas árvores escondidos e dar fim à madeira, ou seja, em geral não a aproveitam, o que poderia gerar renda para a economia local, mediante o uso da madeira para lenha ou para cercas, etc.

2- Estas árvores dispersas não ajudam em muita coisa o ambiente para a fauna, mais eficiente seria se estivessem plantadas continuamente, em reservas. De quebra, se um proprietário resolve ao invés de derrubar uma árvore madura apta ao corte, comprar madeira numa madeireira, poderá estar aumentando a pressão sob a própria floresta amazônica, pois é de lá que ainda vem boa parte da madeira de lei usada no país.

Há ainda um aspecto de entendimento de propriedade privada. As áreas de reserva legal e de preservação permanente poderiam sim ser submetidas à um crivo de impedimento de uso, mas de maneira nenhuma as demais áreas da propriedade. Ou seja, se um proprietário quiser cortar quantas árvores quiser na área da propriedade que está desobstruída para uso, deveria ser livre para fazer isso.

Maior bem ao meio ambiente e ao planeta fariam os ambientalistas se atentassem para a implantação de curvas de nível e para o manejo de pastagem que impedisse a degradação da mesma e concomitantemente do solo. Ou então que viabilizassem viveiros de mudas para serem plantadas nas fazendas.
O Brasil foi um dos países que menos desmatou no mundo. Segundo dados da EMBRAPA a Europa, sem a Rússia, detinha mais de 7% das florestas do planeta e hoje tem apenas 0,1%. A África possuía quase 11% e agora tem 3,4%. A Ásia que já deteve 23,6% das florestas mundiais, agora possui 5,5% e segue desmatando. O Brasil que possuía 9,8% , hoje possui 28,3% da área florestal do globo. Isto a despeito de toda a imagem de desmatador que o país enfrenta atualmente.

Nossa legislação ambiental precisa de alterações, sem dúvida. Ao pé da letra não deveriam ser plantadas bananas nos morros do litoral paulista, nem café em Minas, nem criar gado no Pantanal. Arroz no brejo então, negativo. Quem mais perde com a manutenção da lei atual é o cidadão comum, consumidor de alimentos.

Para pecuária, a arborização é benéfica, mas isto não pode se tornar um impeditivo para a mudança da atividade para outros tipos de cultura, seja de grãos ou da cana. Penso que tornar o replantio de árvores algo lucrativo seria a melhor maneira de se perpetuar a existência das mesmas. Embora a produção de celulose, lenha e madeira para construção civil venha se baseando em espécies como eucalipto e pinus, algumas outras espécies nativas também poderiam ser utilizadas, em especial para o setor moveleiro.

Mas meu intuito, repito, refere-se às árvores que estão em meio às pastagens. Como poderia se proceder a manutenção de espécies vegetais e desburocratizar a implantação de novas atividades agrícolas?

Penso que haveria mais de uma forma: A primeira é simplesmente desonerar o produtor rural disto, desde que ele tenha sua reserva legal e APP`s (Área de Preservação Permanente) devidamente preservadas.

A segunda seria que simplesmente para cada árvore a ser cortada, que se plantasse um número maior de árvores em outra localidade da propriedade. Poderiam ser 3, 5 ou mais árvores plantadas – para cada cortada - adjacentes à área de APP, ou em locais escolhidos pelo proprietário.

Uma outra forma é a de se plantar árvore nenhuma, mas o produtor adquirir créditos de plantio de alguma reflorestadora idônea, que se capitalizaria para sua atividade e que no futuro revertesse este crédito para o adquirente. O proprietário rural seria como um acionista da empresa, mas ele pagaria para esta empresa plantar as árvores que deveriam ter sido repostas na sua propriedade e no prazo estipulado (5, 10 ou 20 anos) recuperaria seu dinheiro em porcentagem do que seria o corte daquela árvore que ele pagou para ser plantada.

As reflorestadoras poderiam ser tanto as de eucalipto e pinus, mas que tivessem os devidos cuidados ambientais; ou de empresas madeireiras que procedem um manejo sustentável na Amazônia (sim, elas existem).

Também se houvesse maior facilidade em se utilizar madeira, mesmo que não morta e desvitalizada, que é o que a legislação permite nas áreas de reserva, seria mais fácil ocorrer o plantio de árvores, pois haveria o pensamento de que alguém da família do proprietário viesse a se beneficiar daquilo. Afinal as madeiras de lei demoram praticamente mais de 30 anos para terem um porte que justifique seu corte.

Enfim, não vou tentar esgotar as alternativas para questão. Acho que elas são várias e que necessitam de diálogo entre governo, produtores, ambientalistas e reflorestadoras. Tratar uma árvore como uma vaca sagrada é uma burrice que muitas vezes apenas dá margem para um fiscalismo ineficiente quando não corrupto. Mais do que preservá-las, temos que cultivá-las e para isso acontecer o melhor incentivo é o econômico.